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gostava mais disso. E eu adoro isso! E foi um desafio
voltar, porque às vezes, não estando "pronta", a gente vai se
aprontando na frente dos outros também. Porque é um crescimento, e é assim que
é. Você nunca está "pronto" na realidade. Você
pode estar pronto num ponto, mas adiante você vai ver que não estava, entendeu? Então tudo isso foi bacana, porque eu também estava com medo de não ter força. E decepcionar os outros
também, né?
O: E você teve surpresas nesse retorno?
M: Eu tive boas surpresas... Não vou dizer que foram
"surpresas"... Eu descobri que sou forte de novo (risos)! Isso
foi uma boa surpresa! Né? Descobri que eu sou corajosa, e descobri uma
série de coisas, até por ter que passar por esse desafio. O medo é
meio assim, quando você não sabe se vai dar certo ou não. Mas, se você
é forte e tem um astral bacana, geralmente dá certo.
O: Tem que estar disposto.
M: É geralmente dá. Então foi bacana, eu tive boas conclusões daquele
período. Essa banda que eu montei, por exemplo.
O: É a mesma banda do outro show, o "Síssi"?
M: É a mesma banda, e foi ela que me ajudou a voltar. E não foi à toa
que eu escolhi. São pessoas que são muito bons músicos e muito
interessantes também. Todo mundo tem uma profundidade ali, todo mundo
tem um "quê" de artista mesmo. Todo mundo é criativo. Então
são pessoas que eu respeito. É bom estar no palco com essas pessoas.
O: Eu lembro de uma declaração, após um show na Baixada para
milhares de fãs, que você dizia estar surpresa e feliz com o fato
do seu som alcançar aquelas pessoas...
M: O que aconteceu foi o seguinte, eu fiquei ausente seis anos, sete anos
do palco, e o Brasil ficou mais pobre. O país já é pobre, ficou mais
pobre ainda. Então tudo é mais imediatista, porque as pessoas precisam
de dinheiro e de retorno rápido. De certa forma, o tempo em que eu me
ausentei, por um lado, a música caiu muito de qualidade. Várias coisas
surgiram. São coisas que nos colocam em contato com a realidade social
da periferia do Brasil. Por isso são tão importantes. O
"rap", o "hip hop", o "funk" falam de
periferias que eu, por exemplo, que moro na zona sul não tinha muito
conhecimento. O samba já não é... Tem coisas mais fortes que o samba.
O: O samba se tornou meio superficial também.
M: O samba ficou mais classe média, mesmo sendo do morro. Mas agora a voz
do morro é o "rap", o "hip hop", o "funk".
Então muitas coisas aconteceram, que são legais, mas também muitas
coisas que são descartáveis. Eu passei um tempo enorme ausente, e eu
achei que as pessoas talvez não lembrassem de mim. Eu sou uma pessoa
humilde, não sou convencida. Para mim é importante eu me sentir
querida. Mas quando eu estava triste, me sentia muito só, quando eu
estava com depressão. Uma coisa de solidão. Voltando, eu achei que a
banda gostava de mim, minha empresária gostava de mim, a família...
Mas eu achei que não fiz muita falta. Ninguém falava de mim, ninguém
nem perguntava. Achei que não fiz falta. Realmente houve isso, surgiram
muitas pessoas descartáveis, que são sucesso fácil, e as pessoas também
que querem ser felizes. Também não podem ficar com a vida barra
pesada, já sem dinheiro, sem grana e sem poder dançar, então é
compreensível. Falei: "bom nessa altura ninguém mais lembra de
mim". Quando eu fui fazer esse projeto do SESC, que eu fiz Nova
Iguaçu e Madureira também, e que iam 12 mil, 15 mil pessoas - eu fico
emocionada com esse negócio - que conheciam minhas músicas todas, e até
umas músicas do disco novo, o "Síssi". "Nooossa!"
Aquele foi um dos shows mais fortes pra mim. Os shows mais fortes foram
os que eu fiz com contato direto com o povo. Teve um show que eu fiz na
praia, de graça. Porque, eu nunca achei que meu trabalho não fosse
bom, eu comecei a achar que ele não tinha importância. Era bom mas sem
importância, parecia. Mas saber que ele tinha importância para muita
gente, e pessoas que eu não conheço, e, aparentemente, com vidas
completamente diferentes de mim, me trouxe a certeza de que eu sou uma
pessoa comum mesmo. Tudo bem, eu tenho o dom da música, mas o que eu
falo, muita gente entende e aquece muita gente. Então tinha importância!
Eu tive a certeza de que - nossa! - então é só de novo ir atrás e
"olha eu voltei!". É só eu chegar nelas.
O: Antes
do início da turnê, você fez uma participação especial no show da
Ana Carolina no ATL Hall. Como foi isso e como pintou o convite?
M: Foi o seguinte, eu estava montando a banda para ensaiar o "Síssi
na sua", não tinha nem o nome ainda. Mas não virou esse nome à
toa, é engraçado: "Síssi na sua"! Uma pessoa de Niterói
que tinha essa expressão, um cara que trabalha como meu
"boy", Marcelo. Eu dizia: "Como é que tá a
Carola?" - minha cachorra. E ele: "Tá síssi!" (Risos).
Mas então eu já estava querendo voltar, cantar, ensaiar e tal. Um dia
toca o telefone, a empregada falou: "Dona Marina, Ana
Carolina". Eu falei, deve ser a cantora, eu não conheço nenhuma
outra Ana Carolina. Fui atender. Me lembro inclusive que eu estava na
sala tocando uma guitarra, com tudo ligado em casa, amplificador e tal.
Eu tinha visto um show dela na Barra, e na realidade não foi nenhuma música
que me bateu não. Eu gostei dela no palco, achei que ela tinha uma
coisa muito própria. E fui falar com ela no camarim - isso antes dela
me ligar - e ela: "Ah, vamos compor!" Eu achei graça. Um dia
ela ligou: "Olha eu vou fazer um show no Rio, num lugar grande,
querem que eu convide alguém para cantar comigo, e a pessoa com quem eu
tenho vontade de cantar é você". Falei: "eu aceito!"
Ela fez: "Ééééé?" Disse: "Aceito. Vou pensar numas músicas
que eu acho que tem a ver, quantas seriam?" Eram duas ou três.
Peguei o telefone dela, pensei, liguei, ela achou bacana, e um dia ela
foi ao meu ensaio. Outro dia eu fui no ensaio com a banda dela. Ensaiei
e cantei, foi fácil na realidade. Porque eu achei que ela estava sendo
sincera e eu admirei que eu vi. Gostei do show dela.
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ficava grata, mas as regravações não me surpreendiam. Eram visões mais
simplistas.
O: Não acrescentavam?
M: Eram visões mais acadêmicas, mais MPB. Até o momento em que
ele gravou "Fullgás". E ele gravou como eu gravaria se fosse ele,
entendeu? Ele arrasou! E claro tinha que ser um cara na minha
praia, para entender mais ainda o que eu queria dizer. Eu tenho
uma irmandade aí com Lulu, de geração e de uma admiração mútua. Eu
acho que ele é um puta compositor. Me lembro que a primeira vez
que eu ouvi, eu estava no Shopping da Gávea, e estava tocando
"Adivinha O Quê" no "speaker" de uma loja, aquele negócio "...só
gosto com você...", eu ouvi e falei: "que cara de pau essa
música!" Mas que coisa boa. Era irresistível. Era cínico, mas era
bom. E eu não sabia quem era. Foi aí que eu conheci o Lulu. E
comecei a prestar atenção nesse lado dele, ele toca, é muito bom
em show, mas ele tem umas sacações legais de composição. Foi por
aí, e a gente sempre se telefona de dois em dois anos, e um
comenta o trabalho do outro, uma relação bacana, de geração mesmo.
O: E
o novo show, "Setembro"? Está muito diferente do "Síssi"?
M: Não está muito diferente não. Tem a ver com tudo que eu estou te
dizendo. Eu descobri, primeiro, que as pessoas estavam com saudades, e
que elas querem também ouvir outras músicas antigas. Elas pedem. E eu
acho que eu tenho uma função no Brasil, essa coisa que eu te falei,
meu trabalho é muito bom, mas pra quê? É importante ter? É
importante ter. Eu trabalho com cultura popular. É o que eu gosto de
fazer. Eu poderia, como eu estudo, sei lá, virar uma coisa erudita.
Meio Egberto Gismonti, sabe? Mas eu sou uma cantora brasileira, trabalho
aqui, não na Suíça. Então tem que ser um show, que seja sofisticado
de uma maneira muito simples, não é para ficar "racée", não
uma coisa burguesa. Uma música que seja brasileira, de um jeito que eu
gosto, "pop" sofisticado. Ao mesmo tempo ela tem que tocar as
pessoas do Brasil. Eu faço show às vezes no interior do Pará, e
quando eu estou lá, com aquele público de Paraopebas, ele foi me ver e
eu estou a fim de me comunicar com aquelas pessoas. Então se eu fizer
um show todo "moderno", as pessoas não vão entender. E as
pessoas querem, elas querem ser tocadas, e eu estou a fim de ocupar o
meu lugar de novo no Brasil. Então é um show que tem um pouco do meu
conceito musical - claro que vai ter sofisticação, porque eu gosto
disso! Mas eu sou brasileira. Moro aqui, eu lanço o que acontece aqui e
tudo me interessa. O "axé" me interessa. Acho que essa célula
rítmica é muito importante para o Brasil. Introduziu um ritmo novo,
brasileiro. Harmonicamente é muito ruim, muito pobre, mas ritmicamente
não. Tudo isso e eu estou aqui, estou vendo, entendeu? Eu tenho essa
ambição de fazer um trabalho que chegue nas pessoas mais simples também.
Porque música, cara, é o inconsciente coletivo!
O: "Setembro"
foi o seu disco mais rápido?
M: Foi o mais rápido, mas também porque eu estou mais competente. Eu
venho estudando. Antigamente eu tinha que passar muitas coisas que eu
queria para música, hoje em dia eu posso programar algumas coisas no
computador. Eu posso chamar um cara para produzir, ou co-produzir
comigo, e mostrar as demos, falar: "olha, essas são as músicas".
O: Você
já compõe direto no computador?
M: Componho. As músicas de "Setembro" todas foram feitas assim.
Desde o "Pierrot do Brasil" eu venho fazendo isso. "Deixa
Estar", "Uma Antiga Manhã", "Sua", aquela que
eu fiz com Sérgio Brito...
O: "Leva
(Esse samba, esse amor)"...
M: É... Ele mudou, essa música se chamava "Japa". Era o apelido
que eu tinha botado. Eu sempre esqueço o nome por causa da letra. Por
que eu fiz a música, ele fez a letra. Mas assim, quatro ou cinco músicas
eu tinha feito no computador. Porque eu tinha feito um curso e já
estava louca para trabalhar com isso. Para compositor, que não faz
parte de uma banda... Eu agora tenho essa banda, que é um pouco a minha
banda, o Edu (Martins) é um cara que... A gente trabalhou muito juntos,
mas a minha carreira é meio solo. Quanto mais eu souber dominar essas
coisas, melhor para o meu trabalho. Melhor eu posso expor ele. Não vou
deixar de querer músicos. Sempre vai ter gente tocando alguma coisa que
eu não sei tocar para realizar meu som. Mas o "esqueleto",
quanto melhor eu puder mostrar, melhor.
O: Você
ainda recorre ao violão?
M: Porque é um instrumento, né? Nesse disco, a música
"Setembro" eu compus uma parte no violão e uma parte no
teclado. Mas "Dois Durões", "No Escuro",
"Paris-Dakar" e a música que eu fiz com o Dalto ("Notícias"),
foram todas feitas no computador.
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O: Antes mesmo do disco chegar já havia uma boa divulgação para o
lançamento...
M: Pois é! Uma gravadora que
acredita no meu trabalho. Brasileira, pequena, mas aqui não é a
filial de uma matriz que fica na Europa. Aqui é a matriz! E eles
estão a fim de arrebentar, porque aqui é o que eles querem, eles
conhecem o mercado. E eu estou contente com a gravadora. Estou
feliz também porque, eu tenho uma editora, a Fullgás, mas
ela era administrada por outras editoras,
e eu pagava um percentual para isso, agora que eu
entrei para Abril, ela vai administrar minha editora. Achei bacana.
O: Pelo
seu selo, "Fullgás", você lançou a Cris Braun. Hoje como
está?
M: Lancei. Eu já tinha a editora e a produtora que se chamam "Fullgás".
Quando eu retornei para Polygram eu falei que queria ter um selo. Porque
eu achava que o meu trabalho não interessava, pensei que talvez fosse
um problema comigo, e se eu lançasse pessoas que eu achasse
interessantes poderia ajudar. Eu estava testando. Aí a Cris me mandou
umas fitas, e eu a contratei como cantora. Só que a Cris queria compor.
Então ela fez o disco como ela quis. Eu não concordei, mas tenho que
respeitar a artista. Então o disco não rolou muito, foi aí eu
descobri que não estou ainda pronta para ser patroa de artista (risos).
Eu sou muito artista para ser dona de selo. Porque os artistas não
querem obedecer ninguém, e isso eu tenho que respeitar. Se eu for ter
uma gravadora, eu vou à falência e vou levar junto quem for bancar a
gravadora. Eu não sei mandar em artista, eu respeito os artistas. É
difícil isso...
O: E sobre o Lobão. Vocês praticamente começaram juntos, ele era
baterista da sua primeira banda, você inclusive cedia espaço durante
seu show para ele cantar...
M: Acontece o seguinte, a gente ficou amigo. Eu fico amiga dos meus músicos,
adoro música. E eu sou uma mulher, hoje em dia até tem, mas antes
mulheres não se interessavam muito por música, eram só cantoras, não
tocavam, coisa que eu sempre gostei muito. Então acabava compondo com
as pessoas com quem eu tocava. Ele começou a me mostrar umas canções
dele, eu mostrava umas minhas e começamos a compor. Ficamos amigos
mesmo. O Lobão quando se separou foi morar na minha casa. Uma relação
fraternal. Nunca namoramos, não. Eu gosto muito dele, e... A gente tem
um trabalho meio que paralelo, é coisa de geração. Na época do
"Pierrot do Brasil", ele foi lá em casa e me mostrou umas músicas.
Eu ouvi. Mas não bateu, entende? Não sei se ele ficou chateado... Até
falei uma vez pro Pedro Alexandre (Folha de São Paulo): "Porra,
Lobão é do caralho só que eu acho que ele não está compondo à
altura que ele pode!" Não sei se o cara falou isso pra ele...
Mas eu falei um pouco pro cara falar mesmo, porque eu achava que ele
tinha que compor melhor. Aí cara, dois dias antes do carnaval eu liguei
a televisão e estava passando um clip de uma música dele chamada
"Universo Paralelo". Cara... Além de achar o clip lindo, eu
achei a música linda. Aí eu comecei a ligar pro Lobão, falei com a
mulher dele e tal, e nunca mais o cara me ligou (risos)! Então o Lobão
está compondo bem ultimamente, isso que eu queria te dizer (risos).
Voltou a compor bem.
O: O
que você acha da iniciativa dele, de criar um selo "Universo
Paralelo", vender o cd em banca de jornal e ter um excelente
retorno?
M: Isso é uma prova da força dele! Acho um barato e fico feliz porque eu
não gosto das pessoas à toa. Lobão aparentemente parece que é
irreverente, ele não é irreverente, não, ele tem uma filosofia que
tem um quê de anárquico, mas nem é isso, é a escala de valores dele,
é o que ele acha mesmo. Uma visão grega dele, do mundo, que tem um
embasamento. Eu entendo e gosto dele. Não adianta, ele é um cara que
ninguém vai calar. Ele aparece, faz as coisas, divulga em rádios
clandestinas, ele é um cara querido. Lobão quando foi preso, abordou
cedo a questão das drogas e não tem medo das polêmicas, de assuntos
que de alguma forma podem vir a ter conseqüências que podem prejudicá-lo.
Ele não tem medo, é um cara corajoso, questiona o sistema.
O: Ele
defende o que acredita, né?
M: É, e é um direito dele.
O: Você
deu uma parada de seis anos, existe um público que está te descobrindo
agora e não tem acesso aos seus primeiros discos, praticamente todos
fora de catálogo. Qual sua opinião sobre isso?
M: Sabe o que acontece, cara? Foi por essa razão que deixei a
Universal.
O: As
coletâneas?
M: Sabe por que? Porque se neguinho queria ganhar dinheiro, lança um
disco. Quer mais dinheiro? Lança outro disco sem você saber, por trás.
Se querem mesmo ganhar em cima de você, por que não relançam os
primeiros discos? Por que não remasterizam? Por que? Porque não
respeitam a carreira. Você é uma mera fruta de uma feira, que na
semana seguinte já não serve para eles. Por isso que eu fico puta! Não
tem grilo, eu topo as coisas, se eu achar que tem um sentido, se vai
ajudar a divulgar meu trabalho. Eu topo. Agora, ficar fazendo coletânea?
Todo disco tem um sentido, uma afirmação para aquele momento. A ordem
das músicas, a letra que é usada, as fotos que foram escolhidas, o que
está escrito dentro. Aquilo é uma apresentação. Como se fosse um
livro, tem o primeiro, segundo, terceiro capítulo... Nada ali é à
toa. "Ah, tava ali quando eu vi...", meu trabalho não é
assim. Estava ali por eu quis, hoje posso até achar alguma bobagem, mas
quando fiz, errei acreditando. Aí chega uma pessoa, coloca uma capa,
começa com uma faixa depois pula para quatro anos antes, não tem pé
nem cabeça! Fica essa inconsistência, o samba do crioulo doido, sabe?
Não estou a fim! Por isso saí de lá.
O: Você
em 1995 lançou "Abrigo", com músicas de artistas novos além
de alguns clássicos. Bethânia acaba de lançar "Maricotinha",
com músicas de gente como Ana Carolina, Adriana Calcanhoto, Herbert
Vianna entre outros. Há pouco tempo, a Gal declarou que não houve uma
renovação de valores na MPB, compositores especificamente. Qual sua
opinião sobre esse assunto?
M: Eu entendo o que ela quer dizer, porque ela é uma cantora que conviveu
com Caetano, quando ele tinha grandes canções, com Gil, com Tom... É
uma mulher que conviveu com grandes compositores e está acostumada com
grandes canções. Hoje em dia tem grandes cantoras no Brasil, então se
a Gal não gravar uma grande canção, ela vai ficar tipo a Marisa.
Porque tem gente que canta muito bem ou tão bem quanto ela. Então o
que vai, na cabeça da Gal, eu acho, mostrar que ela é uma "medalhona",
uma grande cantora, é uma canção como ela está acostumada. Eu acho
que pintaram pessoas bacanas, mas, por exemplo: eu acho que tem pessoas
que compõe bem e não cantam bem, mas cantam. E tem gente que canta bem
e não compõe bem, mas compõe. Então, acho que a Gal quis dizer que
hoje todo mundo canta. Os compositores gravam as próprias músicas.
Paulinho Moska é muito bom compositor. Mas não é melhor que o Caetano
e o Gil. E os dois são amigos dela, estão ali, mais perto para ela.
Agora, eu acho que houve uma renovação sim, e a Maria Bethânia que é
uma intérprete pode pegar e gravar uma música da Ana Carolina, da
Adriana Calcanhoto, e está tudo certo para ela. Eu gosto de conceito
musical, gosto de estilo. Adoro por exemplo a Marisa Monte cantando, mas
não ouço o disco dela, muito. Aquela sonoridade não me interessa
muito. Uma coisa de gosto mesmo. Eu tenho o direito. Tem um quê de
Novos Baianos, tem um pouco do trabalho que o Caetano já fez uma época,
um pouco do que a Gal já fez também. A Marisa Monte é uma grande
cantora, e para mim o melhor disco dela é o primeiro, que o Nelson
Motta produziu. Ela tem que cantar grandes canções. Eu acho legal ela
estar compondo, mas ela como cantora está muito à frente do que ela
compõe. Para mim, que estou interessada em som, eu quero o que seja a
trilha sonora da minha vida, música me aquece. Posso até ouvir as
coisas de uma maneira tipo analítica. Mas o que eu gosto de ouvir... O
que eu agora estou ouvindo não é o disco da Marisa, por exemplo. Acho
que ela canta pra caralho, mas a sonoridade não me interessa, e aí? Eu
fico esperando para ver se vai ter um disco que eu vou gostar mais,
entendeu? Mas não rola. Ana Carolina eu gostei do show, acho que ela
canta bem, toca bem, mas o repertório do disco não é aquilo que eu
gosto tanto de ouvir. Mas eu estou há anos aí, tenho o ouvido super
depurado, sou exigente porque é disso que eu gosto e para mim, no
Brasil, as coisas mais bacanas são as que vêm da periferia, é poder
ouvir vozes novas, a voz do morro mesmo. Eu não conhecia, e entrei em
contato por causa do "rap" e dessas coisas que aconteceram,
por causa de muita gente corajosa, como o Xis, por exemplo. São pessoas
que eu não ouvia. O resto é legal, mas eu acho que... Música requer
muita humildade, sabe?
O: Você
falou sobre algumas cantoras, a Cássia Eller era uma grande cantora?
M: A Cássia tem uma puta voz, e eu ainda estou um pouco sob o impacto
desse acontecimento que foi uma coisa inesperada e muito triste. Então
qualquer coisa que eu diga agora será apenas lamentando a ausência
dela aqui. Ela foi a vários shows meus e eu fui a vários shows dela. A
coisa que eu mais gostei da Cássia cantando na vida foi a música do
Renato, "Por Enquanto". Para mim aquela é a grande obra
prima! Ela tocando violão, a música, o jeito que ela cantou, é o que
a Cássia vai deixar para sempre pra mim, aquela gravação é o ápice.
O: Como
surgiu a trilha sonora que você fez, com Felipe Venâncio e o Suba,
para o desfile da Fórum? Poderia virar um cd?
M: Poderia. Tem até uma coisa que eu fiz com o Suba que está saindo pela
gravadora belga que lançou o cd da Bebel Gilberto. Mas isso foi o
seguinte, um amigo meu, Giovani Bianco - que me vê criando em casa,
feito cientista maluca -, falou com Tufi Duek: "Marina tinha que
fazer a trilha porque os sons que eu mais estou gostando de ouvir, eu
estou ouvindo na casa dela". Ele tinha ido lá em casa e eu mostrei
para ele, no computador, "Pierrot". Eu tinha colocado a
guitarra, meu computador tem uma entrada para áudio, e gravei o baixo
do Edu também. Ele achou aquilo maravilhoso. Aí o Tufi me chamou. Foi
a primeira vez que me chamaram para fazer uma trilha, foi um desafio.
Fui para São Paulo e chamei o Suba, eu ainda não dominava aquela
linguagem e tinha acabado de trabalhar com ele no "Pierrot do
Brasil", então estávamos muito ligados. Aí o Giovani falou
assim: "olha, tem um DJ, o Felipe e tal..." Eu falei:
"CHAMA! E vamos já fazer". Ficamos eu, Suba e o Felipe uns três
dias lá, "internados" no estúdio em São Paulo e criamos
aquilo. Tinha uma parte que era uma música que eu tinha feito com o
Suba, quando entram uns clarinetes (cantarola um trecho), uma parte do
arranjo que a gente tinha feito na minha casa, e o Felipe entrou com o
"timing" dele de DJ. Foi uma mistura bacana e uma experiência
muito boa para mim.
O: Embora
seja um formato diferente do que você está explorando agora, você
planeja fazer um acústico?
M: Deixa eu te falar um negócio? É engraçado, você vê: Kurt Cobain se
matou. Ele achava que o trabalho dele tinha se diluído, e dali em
diante só ia continuar a se diluir. Algumas pessoas morreram, pessoas
muito fortes, e tal. Eu fiquei muito mal de cabeça, achei que estava
ficando doente. Fiquei, mas não fiquei com um câncer, não me matei,
entendeu? Entendi que estava mal, parei e consegui recuperar uma coisa
musical. Que é uma crença numa música que eu ouço na minha cabeça,
e que eu tento o tempo inteiro mostrar pros outros. "To ouvindo
isso aqui..." Então eu posso até vir a fazer um acústico. Se eu
achar que vai ficar bonito, faço. Porque agora, tudo que eu tinha dúvida
("se minha música tinha importância, se ela tinha lugar"),
eu descobri que sou querida mesmo, as pessoas gostam e eu acho que
posso, com o trabalho de hoje em dia junto com o antigo, abrir o
"espectro" de novo da música brasileira, e tornar esse tipo
de trabalho, popular. A coisa que se barateou, porque o país ficou mais
pobre, e é natural que aconteça, eu acho que com jeito eu posso tentar
elevar o nível de novo. Para mim a minha missão agora é essa, então
eu posso até vir a fazer um acústico. Tranqüilamente.
O: Como
é a sua relação com a internet?
M: Primeiro é com o computador, eu trabalho com computador direto. Em música
ele vira um gravador, de milhões de canais digitais. Então é uma
maravilha, é como ter um estúdio em casa, você pode gravar 40 canais.
Tem um som perfeito digital, ainda pode colocar áudio, gravar voz, tudo
em casa. Por isso não me sobra tanto tempo para viajar na internet.
Logo que chegou a internet, eu fiquei louca, mas depois comecei a ver
que eu tinha uma relação meio de controle remoto. Quando eu ia ver,
estava há horas vendo uma coisa só de curiosidade, enquanto tinha
coisas efetivas para fazer. Então eu uso para e-mail, e acesso uma ou
outra coisa mas não fico muito tempo.
O: Você
acompanha o fórum do seu site?
M: Acompanho. Não acompanhava não, mas um dia uma fã me ligou dizendo
que eu tinha que entrar porque tinha uma mulher fazendo horrores e tal,
aí eu entrei, vi, e passei a acompanhar e responder algumas mensagens.
E eu entrei, na semana do carnaval que eu fiquei de folga, no meu site,
pela primeira vez depois que ele ficou pronto. Fiquei uma hora olhando,
checando tudo e entrei no fórum. E foi muito bacana ter entrado no fórum.
Comecei a pensar que por causa de algumas mensagens que tinham ali no fórum
eu vou acrescentar algumas informações no site.
O: Hoje
por acaso eu descobri, via fórum, um site muito legal feito em sua
homenagem, Encanto de Marina...
M: É! Tem um cara, Welbert... Mas é uma loucura, assim, esse site tem
tudo (risos)! Não é nada oficial, ele tem fotos minhas de coisas que
eu nem imagino. Um fã desde o começo, que cortou revistas, e tem muita
coisa.
O: Você
tem uma posição com relação à maconha, tipo legalização ou
descriminação?
M: Tenho. Sou a favor da descriminação da maconha. Eu fico pensando
assim, antigamente nos Estados Unidos o álcool era proibido pela Lei
Seca. Porque hoje em dia o álcool pode ser vendido, o cigarro pode, e o
fumo não? O álcool em cada pessoa tem um efeito, e para mim a maconha
é tão "inofensiva" quanto o álcool. Então qual o critério
de proibição? Não sei qual é. Isso é uma questão do primeiro
mundo, Holanda, Inglaterra, Suécia... Mas o Brasil é um país de
primeiro mundo em tantas coisas, na música, na medicina e em várias
questões. Já temos tantos problemas de criminalidade, que eu acho que
está na hora de ver isso.
O: Qual
você considera o maior impedimento para que a sociedade evolua nas
questões que cercam relações homossexuais no Brasil?
M: Sabe o que acontece? Culpa. O Shoppenhauer diz assim: "a morte
é a mãe da religião". Quando o homem descobriu que morria, criou
a religião, porque ele tinha medo, né? Para poder meio que se
acalentar e tal. Isso podia ser uma coisa até bacana, meio simbólica,
mas as pessoas que querem poder, criam milhões de coisas. A religião
em si, a filosofia cristã de fraternidade, tudo isso é muito bacana. A
questão religiosa é que é complicada, quando se criam igrejas, quando
tem dinheiro envolvido, aí fica uma merda. Porque as pessoas usam a
religião para manipular, para meter culpa nas pessoas, para as pessoas
terem grilo de tudo que elas sentem, porque elas ficam ali cordeirinhas
e subordinadas a uma coisa maior que diz que isso não pode, senão é
castigado e tal. Eu acho que essa é a questão, a religião é que
impede, que mete medo e culpa nas pessoas. Se o cara não tem como
estudar, não tem uma situação econômica e uma política social
bacanas no país, se torna uma pessoa ignorante, facilmente manipulável
e acaba sem saída. Por isso é tão importante a instrução, uma questão
do primeiro mundo, para que as pessoas descubram o que é melhor para
elas. As questões individuais, se você não estuda, não pode saber,
tem que ir junto com o gado, acreditar no que te dizem. A questão
moral, religiosa.
O: Agora
eu queria que Marina Lima definisse Marina Lima.
M: Olha, sou uma mulher animada. Estou animada. Tenho vivido algumas
coisas, tenho visto poucas e boas e acredito na vida. O que a gente não
pode perder é a crença nas coisas, as coisas que são importantes para
cada um. Acredito nas coisas, acredito na vida, acredito nos meus
amigos, nos meus bichos, na boa fé das pessoas. Acho que as coisas
bacanas vão vencer e eu estou aí para batalhar e eu acho que vai dar pé.
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